Terras Altas de Minas · Minas Gerais
Dona Roseli Monferdini
Sítio Vale do CaféParceiro há 1 mês
Sobre o produtor
Chegamos em Bueno Brandão, Minas Gerais, a mais de mil trezentos e cinquenta metros de altitude. O vento é fresco e a neblina costuma cobrir os cafeeiros logo cedo. Esse clima desenha o cenário perfeito de "mar de morros" da Mantiqueira, mas faz algo ainda mais especial na planta: obriga os frutos a amadurecerem bem devagar. É essa paciência da natureza que concentra os açúcares no grão, preparando o terreno para uma xícara extraordinária.
Quando chegamos ao Sítio Vale do Café, fomos recebidos com aquele calor que só a gente do interior sabe dar. Para nos contar a história do lugar e de como tudo começou, elas prepararam uma mesa deliciosa, digna de uma tarde na roça: tinha biscoito de polvilho crocante, sanduíches de frango e bolo caseiro que perfumavam o ambiente.
No centro de tudo, a grande surpresa ficou por conta da xícara. Elas prepararam dois cafés totalmente diferentes entre si para provarmos, mostrando na prática como o mesmo solo e o mesmo cuidado podem revelar caminhos sensoriais surpreendentes. É nessa hora que a gente entende o verdadeiro propósito da fazenda: para elas, a melhor parte de produzir café especial não é o troféu ou a nota alta, mas sim o poder de compartilhar a bebida única com quem chega, mantendo viva a linda tradição de uma boa conversa de cozinha.
UMA HISTÓRIA QUE COMEÇA EM 1920.
Filha de imigrantes italianos, a dona Roseli Monferdini nasceu e cresceu no meio dos cafeeiros. O envolvimento da família Palini & Monferdini com o café começou lá atrás, em 1920, quando os seus tataravós vieram da Itália para o Brasil para trabalhar nas lavouras na região de Espírito Santo do Pinhal, SP. Seja plantando, colhendo, cuidando ou comercializando, o café sempre foi o sustento e o coração da família. Em 2003, eles escolheram Bueno Brandão, MG, como lar, transformando as terras da Serra da Mantiqueira na sede da Cafeeira Boa Vista.
Quando sentamos para conversar com dona Roseli, a resposta veio humilde e certeira:
“EU NÃO SEI FAZER OUTRA COISA A NÃO SER CAFÉ.” - E, de fato, ela entrega alma nisso.
Quando decidiu produzir seu primeiro lote especial, o trabalho foi totalmente artesanal. Ela colheu e separou os grãos manualmente, um a um. Foram noites inteiras sem dormir, caminhando pelo terreiro sob o frio da Mantiqueira, varrendo o café e controlando a umidade na escuridão. O prêmio por tanto suor veio na xícara: um café grandioso que alcançou 88 pontos.
Hoje, essa mesma dedicação que produz cafés especiais se estende a toda a comunidade de Bueno Brandão. Através do trabalho na Cafeeira Boa Vista, os produtores parceiros e amigos recebem instrução completa -desde a colheita, manejo, transporte, secagem dos grãos e beneficiamento, até a venda efetiva. É a união de uma família que batalha por um comércio justo, garantindo a rentabilidade regional e devolvendo a quem cuida da terra não apenas o valor da saca, mas, principalmente, o conhecimento, a busca pela excelência e o profundo respeito por tanto trabalho.
O NASCER DE TERRAS ALTAS DE MINAS.
O passo seguinte dessa história ganhou o olhar técnico da filha, a Gi Monferdini. Ela percebeu que aquele pedaço de chão em Bueno Brandão não era apenas mais um cenário bonito; a combinação de altitude, solo e neblina criava um microclima e um terroir únicos na Serra da Mantiqueira - propícios para cafés florais.
Em vez de guardar o segredo para si, Gi mobilizou os vizinhos e produtores locais. Juntos, uniram forças sob a liderança dela para criar a Indicação Geográfica (IG) Terras Altas de Minas, um projeto que já está em processo de aprovação junto ao governo.
Visitar a propriedade é entender o verdadeiro significado de calmaria. É ver o gato do sítio dormindo sossegado nas cadeiras da recepção e dar de cara com o quadro na parede que resume toda aquela vida em uma prece para Nossa Senhora do Café:
“...NO GESTO DE JUNTAR TODAS AS MÃOS NO GOSTO DE TOMAR CAFÉ COM PÃO. AMÉM”
Nota: Se você der a sorte de visitar o sítio em um dia de sol, provavelmente vai ser recebido pelo verdadeiro chefe do controle de qualidade: o gatinho da recepção. Ele não entende muito de classificação da SCA, mas é especialista em testar o conforto das cadeiras e garantir que tudo na roça siga em conformidade.











